Quase dez minutos se passaram e até agora Samuel só tinha ouvido o irritante e insistente som das ondas e o ranger da madeira carcomida da casa. O vento estava um pouco forte e fazia um frio que também o irritava. Bem, Samuel era um sujeito de pouca paciência e estava decidindo se devia ou não dar um grande bico na porta para ver o que estava acontecendo. Segurava, irritado, a ponta do barbante que Bonfim lhe deu, pensando em mil insultos quando ele caiu de sua mão. “Estranho”, pensou. Não via razão para ter derrubado o barbante. Bonfim havia dito que ele o puxaria do outro lado, com magia, mas isso? Será? “Magia é argumentação”, dizia ele. Talvez se não tivesse dito como funcionaria o feitiço Samuel tomaria como um acaso, mas sendo essa a questão... havia ele puxado e por isso o barbante caiu?
- Odeio essas pajelanças.
Depois de tanto tempo contendo a idéia de chutar a porta, não poderia fazê-lo de outra forma. Samuel caminhou decidido até ela e bateu com a sola do pé com tanta força que a porta, que já teve dias melhores, soltou-se das dobradiças e caiu no chão fazendo grande estardalhaço. A sala onde entrava fedia ainda mais do que a praia e ele subitamente percebeu que não sentia mais o cheiro de peixe podre nem ouvia o mar. Havia só o som de respiração que parecia vir de todo lugar e uma ausência de vento que nunca sentira. Era como se o clima do lugar funcionasse de uma forma semelhante, porém com uma diferença incômoda do resto do mundo. “Outro plano”, pensou. Uma luz muito fraca, vindo do cômodo seguinte se destacou no silêncio. Não ouvia ou não entendia o que ela falava, mas parecia uma voz cansada, quase desistente, como se tivesse se arrastado por quilômetros antes de alcançar seus ouvidos. Havia uma luz fraca, amarelada, igualmente tímida, que se arrastava desse cômodo. O chão de madeira rangia sob os passos decididos de Samuel que caminhava atento em direção à luz. Era lá que estava seu amigo.
Assim que chegou sob o portal viu Bonfim atracado com um vulto, que poderia muito bem parecer com uma velha senhora se não fosse o vigor com o qual lutava com ele e a expressão de ódio sobrenatural de seus olhos, amarelados, que se destacavam na pele negra coberta de excrementos e sangue. Bonfim estava deitado por cima dele, segurando-a pelo peito, apertando-o com uma das mãos contra a cama. Com a outra, esfregava uma pasta nos olhos dela enquanto a velha desferia socos violentos contra seu rosto o tórax. A cada golpe o corpo de Bonfim era empurrado para o lado e para cima, de maneira que tinha que fazer muita força para manter-se sobre a mulher. Samuel sentou-se em uma cadeira suja que estava por perto e observou com calma surpreendente a cena. Olhou para ambos e eventualmente ouvia Bonfim dizendo “eu vou espremer vocês do coração dela nem que eu tenha que arrancá-lo do seu peito seus putos”. Viu também que os golpes que atingiam seu amigo não vinham apenas das mãos da velha. A cada solavanco, feridas e hematomas surgiam em suas costas, pernas, nuca. Era como se ele estivesse sendo linchado. Decidiu que era hora de se manifestar.
- Deve ser desconcertante ser surrado por um sujeitinho comum enquanto vocês tentam possuir uma velha semi-morta. Realmente, fim de carreira. Vocês devem ser motivo de vergonha lá no inferno, ou seja lá de onde vieram
Foi como se o tempo parasse. Bonfim esforçou-se para não olhar para ele, como se não estivesse surpreso nem preocupado com sua chegada. Era importante que soubessem que ele sabia disso, que havia um plano, algo oculto que eles não sabiam e deviam temer. A mulher, por sua vez, parou de se chacoalhar e olhou de forma desafiadora para Samuel, mas antes que pudesse fazer algo, Samuel se levantou ainda mais altivo e debochado.
- Por mais que eu não ligue pra essa mulher, esse homem aí é meu amigo. Sugiro, então, que vocês parem e voltem para seus buracos, vermes, ou vou fazer vocês sentirem coisas, coisas muito ruins, que vocês nem mesmo podem imaginar em um nível que sequer ainda existe.
Havia algo de apavorante na voz de Samuel. Era diferente de qualquer coisa que se podia ouvir de uma pessoa. Quando alguém lhe conta uma história de terror, se fosse uma ótima história e um ótimo contador, você pode ficar assustado, mas vai ter sempre o alívio de saber que é apenas uma história. Mesmo que seja algo muito convincente, ou muito real, sempre há um momento de suspensão, um espaço em sua mente onde você pode ponderar se é a situação é real ou não. Uma dúvida que dá algum tom de racionalidade ao que se ouve e, consequentemente, sua reação é algo normal. Mas quando ele fala é diferente. É como se você estivesse de fato vivendo a história. Ele diz “o homem tem medo do machado”, e você sente como se tivesse realmente um machado caindo sobre seu pescoço. Não é um medo fantasioso, que pode estar mais ou menos perto de uma possível situação real. É real. Ele diz “você tem medo” e você realmente tem medo. Bom, aparentemente nem mesmo espíritos ou demônios são totalmente destemidos. Podem não ter “se cagado”, como Bonfim queriam, pois com certeza já viram e fizeram muitas coisas horríveis. Mas com certeza o tom da voz de Samuel lhes deixou intimidados. Intimidados, eles ficaram hesitantes e era apenas disso que Bonfim precisava. “Força de vontade”, ele disse. “esse tipo de aprisionamento é sustentado pela força de vontade”. Agora, com seu ânimo abalado, seu poder se diluiu em incerteza e era essa a brecha que Bonfim esperava conseguir com Samuel. Ele então soltou a mulher, ficando em pé sobre a cama. Ele ergueu os braços e então gritou mais de suas coisas estranhas. A velha convulsionou com suas palavras, vomitou sangue, defecando e urinando. Parece que tudo que há em seu corpo resolveu abandoná-la. Subitamente ela parou. Bonfim, então desceu da cama, com a respiração pesada e o corpo ferido. Ele se debruçou sobre ela sentiu sua respiração.
- Bem vinda de volta, mãe. Eu disse que ia cuidar de tudo.
Virou-se para Samuel, então.
- Ela está viva. Precisamos de um hospital.
- Eu não – Disse Samuel, com um riso debochado. Ele raramente ria, e isso dava certo conforto a Bonfim. Estava terminado, a tensão se fora. Os espíritos se foram.
Eles carregaram o corpo da mulher até a praia e esperam um táxi. Claro, o homem não queria levá-los, pois estavam sujos e fedendo, mas foi só olhar para Samuel, que apenas ergueu uma sobrancelha, e rapidamente uma aura de compaixão afogou seus pensamentos. Sequer cobrou a corrida e assim que chegaram ao Hospital, souberam que a senhora ficaria bem. Bonfim queria fumar seu cigarro de palha e por isso foram para fora.
- Cara, porque você demorou? Eu ia morrer, sabia?
- Culpa sua.
- Culpa minha? Explique.
- Aquele barbantinho cheiroso que você me deu caiu da minha mão. Eu não sabia se tinha caído ou sei lá o que. Demorei uns segundos até apostar nessas suas maluquices e resolver entender que era isso mesmo que você estava querendo dizer com “você vai sentir ele sendo puxado”.
- Você o jogou no chão?
- Não.
- Então, caiu porque eu o puxei, mané.
- Não fode.
-Sério.
- Não fode.
Bonfim olhou com ternura para o amigo. Um olhar que poucas pessoas conheciam pois era um olhar de dívida e Bonfim jamais devia nada a ninguém. Era algo muito perigoso, na sua perspectiva.
- Obrigado.
- Não fode.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
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